Opinião. 2 Abr 2014

Mesh Networking

O conceito não é novo mas pode estar prestes a entrar no nosso dia a dia e a promover mais uma revolução na forma como comunicamos e como acedemos à Internet.

O que é Mesh Networking? É uma topologia de rede em que cada utilizador é ele próprio um nó da rede. Dito assim pode parecer confuso, mas na realidade é muito simples. Atualmente para podermos estar "ligados" precisamos de aceder aos serviços de uma empresa (service provider) que nos fornece acesso à Internet em troca de uma mensalidade ou de um plano pré-pago. Usando uma topologia de Mesh Networking, desde que dois dispositivos estejam de alguma forma ligados entre si podem comunicar. E esta ligação pode ser por cabo, WiFi, Bluetooth ou outro qualquer protocolo de comunicações.

Este tipo de rede já foi várias vezes montado, principalmente em cenários de catástrofes naturais ou desastres humanitários em que o acesso à Internet é impossível porque toda a infraestrutura de antenas, cabos, pontos de acesso, entre outros, foi destruído. Outra utilização recente deste tipo de redes ocorreu em países onde os respetivos governos procuraram limitar ou eliminar o acesso à Internet por parte dos seus cidadãos. A única forma de destruir uma Mesh Network é destruir todos os dispositivos que a partilham. Um exemplo simples de perceber é pensarmos num prédio. Se eu estiver no primeiro andar posso-me ligar via wireless ao meu vizinho do segundo andar, e este liga-se ao do terceiro, que se liga ao do quarto e assim adiante até ao último andar. O meu vizinho do último andar está fora da minha cobertura wireless, mas através de todos os vizinhos entre nós conseguimos estabelecer uma ligação. E se um dos vizinhos tiver uma ligação à Internet, então todo o prédio pode partilhar essa ligação.

Claro que é necessário que todos os dispositivos da rede tenham uma aplicação que permita este tipo de ligação. E agora já todos podemos instalar uma aplicação com estas características nos nossos iPhones, porque a Apple incluiu o suporte a este tipo de ligações na versão 7 do seu sistema operativo, o iOS7. Trata-se de uma funcionalidade a que ninguém deu grande destaque, Multipeer Connectivity Framework, mas que permite que aplicações estabeleçam este tipo de redes. A aplicação já disponível para download na Apple Store chama-se FireChat e é gratuita.

Com esta aplicação já conseguimos comunicar com os nossos amigos durante provas desportivas, durante festivais, na praia, ou em qualquer outro lugar. E sem ligação à Internet. Basta que pelo menos um dos nossos contactos esteja dentro da nossa cobertura WiFi ou Bluetooth.

Este tipo de redes ainda não consegue o mesmo tipo de desempenho das ligações "convencionais" à Internet, mas será apenas uma questão de tempo. A Apple suporta Mesh Networking a partir do iOS7 e a Google também já planeia fazer o mesmo no Android.

E estas redes permitem que as pessoas organizem as suas próprias redes. Sem restrições, sem regulação por parte de uma entidade superior que ao fornecer acesso também pode controlar o acesso, os conteúdos acedidos ou registar quem é que acede a quê. Com Mesh Networking o acesso é anónimo e a privacidade de cada utilizador muito mais salvaguardada.

Com o suporte da Apple e da Google estou convencido que iremos assistir à criação deste tipo de redes um pouco por todo o lado. Redes criadas pelas comunidades, para as comunidades. Sem controlo, sem restrições, com uma promessa de liberdade. Claro que nem tudo será maravilhoso, pois a mesma privacidade que o cidadão anónimo terá, estará também ao alcance de organizações com fins menos inofensivos.

E já agora os pais vão passar a ter um novo problema. Já não basta não pagar a mensalidade do telemóvel para impedir os filhos de passar horas ao telefone ou nos chats e redes sociais; se houver um amigo na vizinhança com FireChat, ou aplicação similar, os jovens têm o problema resolvido. Tal como decidem quem é que não bebe nas saídas à noite para poder conduzir, vão passar também a decidir quem é que se vai portar bem durante o mês para que o resto do grupo tenha acesso à Internet garantido.

Fernando Pina