Opinião.22 Abr 2016

Liam

A Apple apresentou recentemente o Liam. Não se trata de um novo modelo de iPhone, nem de iPad, nem nenhum novo gadget tecnológico. É sim um robot.

Um robot não para construir os produtos da Apple, não para as pessoas terem em casa para ir buscar os iPhones ou Ipads quando não sabemos onde os deixámos, mas sim um robot para desmontar iPhones, mais concretamente para desmontar o iPhone 6s. E o Liam realiza esta tarefa com uma enorme precisão e em escassos 11 segundos.

O Liam é um primeiro passo por parte da Apple no sentido de reciclar os seus produtos quando estes atingem o fim de vida. O robot, com os seus 29 braços, desmonta o iPhone peça por peça, arrumando cada componente num local próprio. Isto permite que a Apple recupere câmeras, placas, parafusos ou até as poucas miligramas de ouro usadas em cada iPhone. A Apple já mantem há algum tempo um programa que permite aos seus equipamentos ter uma nova vida quando são deitados fora e ainda se encontram em funcionamento ou em estado reparável. Estes equipamentos são recuperados e revendidos, permitindo que o mesmo equipamento possa ter vários donos. Quando a recuperação dos equipamentos já não é possível entra em ação o Liam.

No entanto este é um passo ainda muito pequeno. Fazendo as contas, e considerando que o Liam trabalha ininterruptamente durante um ano desmontando um iPhone a cada 11 segundos, o Liam consegue desmontar perto de 2,9 milhões de telemóveis num ano. Atendendo a que só em 2015 a Apple vendeu cerca de 231 milhões de iPhones o efeito prático desta medida é francamente reduzido.

A Apple planeia produzir vários destes robots e distribuí-los um pouco por todo o mundo, num esforço para recuperar os seus equipamentos. Mas é preciso muito mais para combater os milhões de toneladas de lixo eletrónico produzido anualmente. É preciso que exista um Liam para cada modelo de telemóvel, para cada modelo de televisão, para cada modelo de computador... É preciso que os modelos de equipamentos, pelo menos os do mesmo fabricante, fossem mais parecidos entre si em termos de construção. É preciso que os fabricantes comecem a apostar e a preocupar-se a sério com o que fazer aos seus produtos quando estes são apenas lixo. E pode começar por algo muito simples. Um manual de desmontagem de cada equipamento. Há milhares de empresas de reciclagem pelo mundo. Não têm Liams, têm pessoas. E estas pessoas não sabem como desmontar os equipamentos que têm para reciclar.

O esforço da Apple, apesar de na prática não resolver sequer uma pequena parte do problema, é um primeiro passo. Pode ser argumentado que é um passo feito por obrigação, uma vez que há estados dos Estados Unidos que obrigam os fabricantes a participar no esforço de reciclagem dos seus equipamentos. Mas é um primeiro passo e na direção certa. Espera-se que outros se sigam para que este passo, mesmo que lentamente, se transforme numa caminhada de reciclagem de equipamentos eletrónicos. E espera-se também que esta caminhada seja partilhada por outros fabricantes.

Fernando Pina