Opinião. 5 Abr 2012

Design para Designers

Quantas vezes utilizámos websites em que nos perguntávamos no que estaria a pensar o designer quando criou aquela interface? Por vezes, nós designers, apesar de bem intencionados focamo-nos na audiência mais próxima e o resultado são websites ou peças de comunicação que satisfazem o nosso gosto pessoal e o de outros designers, mas não preenchem os requisitos dos utilizadores ou dos próprios Clientes.

Mas o que leva a esta falta de objetividade ou de capacidade para imaginar o que é de facto pretendido? Não deveríamos ser suficientemente inteligentes para conseguir criar para um espetro alargado de utilizadores, em vez de nos focarmos no nosso ponto de vista? A verdade é que também vemos o mundo de uma forma diferente, ou seja, vemos fontes, cores e elementos gráficos onde a maioria vê apenas um website de onde precisa obter algo. Em termos gerais temos tendência para nos focarmos nas árvores e perder de vista a floresta.

Surgem também com alguma frequência websites com preocupações exclusivamente estéticas, de modo a conquistarem espaço num determinado portfólio ou revista, esquecendo quase por completo as necessidades dos utilizadores. Os portfólios e revistas não são os únicos responsáveis por esta abordagem, mas de facto fazem com que os designers valorizem mais o aspeto que a função. Promovem o aparecimento de movimentos ou tendências fazendo com que os designers se sintam na necessidade de as seguir para se manterem atuais. Afinal de contas também precisamos, à semelhança do que acontece noutras áreas, de uma certa validação social.

As respostas às questões dos projetos por vezes também passam por seguir tendências, mas é algo raro uma vez que o destino do produto, à partida, não é ficar simplesmente exposto. A maioria dos casos de sucesso de webdesign começaram por ser desenvolvidos sem grandes preocupações estéticas, colocando as questões certas no momento certo de modo a conseguir um briefing rigoroso e objetivo antes de sugerir soluções. Ao fazermos as perguntas certas concentramos esforços em encaixar as nossas soluções na forma como os utilizadores utilizam a internet em vez de os obrigarmos a navegar como nós gostaríamos.

Atualmente há quem defenda o "co-design", no qual os utilizadores fazem parte do processo de design, guiando a equipa de design nas allterações ou ajustes que acham necessários para conseguir um melhor funcionamento. Os arquitetos por exemplo, por comparação com os designers passam mais tempo a falar com os seus utilizadores, absorvendo a sua perceção e as suas necessidades em vez de só se preocuparem com a sua satisfação artística ou com a necessidade de impressionar outros arquitetos ou críticos.

Nesta abordagem não se trata apenas de pedir opinião aos utilizadores, na realidade consiste em integrá-los no processo de design. Sair do escritório e observar os utilizadores no ambiente de utilização também pode ajudar a perceber como de facto os produtos são utilizados.

Devemos recolher dados de diversas fontes de modo a definir com rigor o ambiente em que o nosso design vai ser utilizado. Isto poderá ajudar-nos a validar as nossas decisões e a abordar as soluções com convicção e objetividade. É mais fácil defender opções estéticas quando são baseadas em argumentos funcionais.

O design é algo muito pessoal, habitualmente é desempenhado com paixão e os melhores resultados são alcançados quando estamos realmente empenhados, mas isso também envolve riscos e o mais comum é o de não sermos capazes de ver além do nosso gosto pessoal, falhando no objetivo final de produzir algo para os outros utilizarem.

Tomar consciência disto permite-nos manter em perspetiva o objetivo final, enquanto nos empenhamos na procura das melhores soluções para cada projeto.

Escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Jorge Mendes