Opinião.27 Ago 2015

Dados pessoais na Internet

A utilização de dados pessoais de utilizadores, por parte de empresas, para fins comerciais não é novidade. Os nossos dados são cedidos para efeitos de marketing a várias entidades, desde a uma empresa de crédito até a um supermercado para ter direito a um cartão de descontos. Estas práticas levantam algumas dúvidas em relação à privacidade dos consumidores. Na Internet, essas questões elevam-se a um novo patamar.

Com o lançamento do Windows 10, um grande número de utilizadores questionou-se com a privacidade do novo Sistema Operativo da Microsoft. O novo software tem por defeito várias configurações que põem em causa a própria utilização do sistema e dos dados que este fornece à empresa e aos seus parceiros. Ao aceitar as condições de utilização do software, o utilizador permite que a Microsoft recolha dados sobre tudo o que é feito nos dispositivos em que o sistema operativo está instalado. Desde informações do calendário, dados de e-mails, mensagens de texto e voz até ao histórico de navegação, todos estes dados são transferidos para a gigante tecnológica que reserva o direito de os utilizar ou vender a terceiros. É possível desativar a maior parte destas funcionalidades através das configurações do sistema, porém estas vêm ativas por defeito.

Mas não é apenas a Microsoft que recorre a estes modelos de captura de dados, também a Google e o Facebook seguem paradigmas semelhantes. A captura da localização do utilizador por parte do sistema operativo Android e a realização de experiências sociais com recurso à manipulação de informação por parte do Facebook são apenas mais exemplos do que é agora um lugar comum no que diz respeito à utilização de dados pessoais.

O maior problema desta utilização por parte de empresas é o controlo que elas dispõem sobre dados que não lhes pertencem. Ao utilizar produtos e serviços que implicam uma captura de dados de utilização deixamos de ser donos dos nossos dados, abdicamos do controlo sobre as nossas informações, hábitos e preferências para servirem de lucro a entidades externas.

No entanto, está agora a surgir uma ideia que pretende devolver o controlo dos dados pessoais ao utilizador. A filosofia inerente a esta ideia é que os dados pessoais de um indivíduo pertencem-lhe apenas a ele e que mais ninguém deve ter-lhes acesso, com exceção dos termos controlados pelo dono dos dados. O objetivo é desenvolver tecnologias que tornem isto possível e fácil de usar. Em Janeiro deste ano foi publicado um paper por investigadores da Queen Mary University of London e da Cambridge University que apresentam a Databox, um software que captura dados pessoais de vários dispositivos e permite ao utilizador gerir essa informação para partilha com terceiros. Desta forma seria possível usar os dados como moeda de troca, nos termos do utilizador.

A forma atual de captura de dados pessoais e monetização dos mesmos, por parte das prestadoras de serviços tecnológicos, não é a melhor para o utilizador. O caminho a percorrer até existir um controlo do fluxo de dados pessoais por parte do indivíduo ainda é longo mas existem esforços nesse sentido e cada vez mais as pessoas estão consciencializadas para esta necessidade.

Bruno Gouveia